Nascemos em uma cidade que nossos pais contruíram: Correspondência entre Humberto Abreu e Alfredo Sampaio

   
 

Acesita: um retrato na parede: Humberto Perlingeiro de Abreu

   
 

Acesita Celeste: Por Alfredo Carvalho Sampaio em 20/08/2009

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nascemos em uma cidade que nossos pais contruíram

Correspondência entre Humberto Abreu e Alfredo Sampaio

Alfredo , outro dia vc se indagou por que nós gostamos tanto de Acesita. Eu também já me indaguei sobre isso.

Mas como dizia o genial Nelson Rodrigues : " Os idiotas da objetividade não percebem o óbvio ululante !" Enquanto  os que nascem em Vitória , São Paulo , Ouro Preto e até Coronel Fabriciano , nascem em cidades  que já  existiam . Nós não , nascemos em uma cidade (Acesita) que nossos pais construiram.

Somos a primeira geração de Acesitanos. Nossos pais deixaram família  , tradições , amigos e encararam um lugar sem nada . Imagine quantos anos os pais do Igino , do Manella e de muitos outros ficaram sem rever seus familiares. Quantos deles não puderam sequer velar seus entes queridos.

Quantos natais de muita saudade , quantas crianças foram batizadas sem um parente por perto. Tal como bandeirantes modernos  , vieram de vários cantos de Minas , do Brasil e até do mundo para construir uma usina de aços especiais . E eles superaram a meta e , mais que uma fábrica , construíram uma comunidade de gente muito especial.

Poucos de nós tínhamos parentes por aqui , a sua família foi exceção, e aí  os vizinhos passaram a serem os tios e primos que não tínhamos. Aquele portão que ligava a casa do Igino à casa do Gentil  era muito comum por aqui .

Aí os laços de vizinhança , viraram laços de família .Para mim, obedecer a Dª Clores , mãe do Beto Pires, ou a Dª Irene , mãe do Roberto Mosci  era a coisa mais normal do mundo.

Essa gente de hoje que tem telefone celular , DDD , internet  não imagina como isso aqui era isolado. Lembro-me que em 1970 fui estudar em Niterói , para falar com meu pai o mais rápido era ir no escritório da Companhia no Centro do Rio e falar via rádio. Por telefone , quando se conseguia a espera era de mais de 4 horas.  

Mudando de assunto, a Vila dos Técnicos tem uma história  especial  repare no número de famílias estrangeiras : Italianos - Família Foschi , Cerlini , Manella , Zamborlini ....Polonês - Charlinsk.... Russo -Nikitin....Teve um americano que eu não lembro o nome.....Italiano misturado com Alemão - Meneghini Tinha o Sr. Leopoldo Salzman , que eu não sei qual a origem Você certamente lembrará de outros exemplos . E todos viviam em harmonia com os brasileiros , sem contar que coordenando essa verdadeira Torre de Babel estava um legítimo Brasileiro Wilkes de Minas.

Sds acesitanas , Beto Abreu

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 Acesita - Um retrato na parede

Há anos, ganhei de meu pai uma fotografia de Acesita que mostrava a fase final da montagem da usina. Lá estava ela: a Vila dos Técnicos, com suas casas originais, a Avenida 14, a 12, a 10, a Rua 37 e a Rua 38, e outras tantas, das quais não me lembro a denominação, mas me lembro bem delas, de quem morava nelas, principalmente. Olho para o retrato fixamente: nele, não há ninguém nas ruas, mas as pessoas estão ali, bem na minha frente, em suas casas, em seus locais de trabalho, deslocando-se da forma como podiam.
Para Drummond, Itabira era apenas um retrato na parede. Para mim, Acesita não é apenas mais um retrato na parede, mas ele está ali, presente e vivo, testemunha de tantas histórias. Nasci em Acesita e em Acesita alguns anos vivi. Vivi mais tempo fora de Acesita do que nela, mas ela nunca saiu de dentro de mim. Está lá, na parede, o retrato, marca indelével, imorredoura, uma paisagem, uma mostra de um passado que teima em não morrer.
Diferente do poeta itabirano, não rompi com Acesita, nem com meu passado. Apesar de diferente, ela ainda está no mesmo lugar, desfiando o tempo, teimosa, vivendo nas memórias de tantos acesitanos espalhados pelo mundo. Nunca tive coragem de fazer uma tatuagem, mas, pensando bem, tatuaria aquele “A”, com que aprendemos muita coisa, no meu peito ou nas minhas costas. Juro que não cobraria nada por fazer propaganda da marca.
Ainda me lembro de tantas coisas que vivi em Acesita, principalmente aquelas que não nos são ensinadas de forma sistematizada e institucionalizada. O respeito pelas pessoas, por exemplo, foi algo que aprendi bem cedo. Aprendi também que o mundo não se restringe a Acesita, mas Acesita é muito maior que o mundo. Mundo, vasto mundo, mais vasto ainda quando povoado pelas lembranças de todos nós que tivemos o privilégio de nascer em uma cidade diferente das outras.

Voltando ao retrato, lembro-me de que parte da Vila dos Técnicos foi engolida pela usina. Dou conta também de que a minha geração foi a primeira e a única nascida e criada na Avenida 14, em frente à Portaria 2 da usina. Será que em algum lugar do mundo existe coisa semelhante? A casa onde nasci só existe nesse retrato, que teima em existir na parede de meu apartamento. Um detalhe: quase nunca olho para ele. Também nem precisa, tenho de cor de salteado todos os detalhes que ele teima em mostrar em apenas uma dimensão. Eu, em minhas lembranças os tenho em 3D e com som em cinco canais. Ainda por cima, colorido a meu modo, pois sou daltônico. Melhor do que no retrato, em preto e branco.
 Agora, vem a pergunta fatídica: por onde andarão as pessoas que moraram naquelas casas vazias, que o retrato teima em mostrar? Não adianta, para mim, elas continuam lá, em suas casas, chegando para o almoço, saindo para o trabalho e para a escola, comprando pão na porta, pegando o leite entregue em carroças. Todos ainda vão ao Cine Marabá, assistem às missas do Padre Abdala e passeiam pela Praça Primeiro de Maio.
Globalizada, a Acesita do meu retrato tinha gente de todo lado. Percebiam-se vários sotaques, o que fazia da gente algo meio internacional. Pergunto de novo: será que em algum lugar do muito aconteceu algo semelhante?  Provavelmente sim, mas da forma como aconteceu em Acesita, eu duvido. Pergunto ainda: onde estão as pessoas que deram vida àquele retrato? Na verdade, não sei, mas penso que continuam vivas, nas formas de seus descendentes e dos ensinamentos deixados.
Prometo que vou tirar aquele retrato da parede e que vou examiná-lo com o olhar criterioso de um cirurgião. Tenho certeza de que, em alguma parte dele encontrarei alguém que, de forma escondida, continua vivo, teimosamente vivo, no retrato pendurado em minha parede. Volto ao retrato? Não, não voltarei a ele, pois isso não é mais necessário. Ele saiu da parede. Agora, ordena minhas lembranças, colocando nos lugares corretos meus já vacilantes recortes de memória. Acesita, um retrato na parede? Sim, na parede e na alma de todos os acesitanos que nunca esqueceram de seu chão.

 

Escrito por Alfredo Carvalho Sampaio em 20/08/2009

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 Acesita Celeste

Amigos eis a carta que recebi da Madame Abgail,
 Obs :  O texto  é da famosa madame que viveu no Vale do Aço entre 1955 até 1989 . A turma mais velha sabe quem ela é , e como eram temidas suas cartas. Bem , vamos ao que interessa. Ela é meio tia do Marcinho.
 Prezado conterrâneo Humberto Perlingeiro Abreu:
 Há algum tempo ando observando essa sua teimosia, e esse seu jeito quixotesco de não querer que o povo esqueça a nossa Acesita. Tem hora que eu não te entendo, porque naquela sua crônica “Ai de Ti Acesita”, você encerrava com a seguinte frase
 “Acostumemo-nos a escrever Timóteo, a nossa Acesita morreu!”
Pois é, meu não tão jovem garoto,  a nossa Acesita morreu.
A companhia está que nem aquelas moças do saudoso Pinga, cada hora tá com um. Depois do Banco do Brasil, já teve a Previ, já foi da Usinor (francesa), já virou Arcelor( Francês , espanhol , belga e luxemburguês), agora é de Indiano(tá até na moda) , mas na Rádio Peão já tem Usiminas na parada.
 A cidade , que é o que  interessa , é cada dia mais Timóteo.
 Você, o Tó e o Pe. Abdalla resistem como podem  mas os fatos conspiram contra. Veja que desde o mês passado o Pe. Abdalla deixou de ser o pároco. Será que o novo vigário manterá a “Paróquia São José de Acesita”? Sei não, hein?
 Como já é do seu conhecimento, forçada pelo Euclides Diogo Sabar , saí dessa para a melhor, e aqui estou no céu.
Você não vai acreditar, mas tem uma acesita-celeste por aqui , é uma colônia de acesitanos que estão sempre juntos .
 O  Cirênio ao lado do Juca, Zé de Alencar, Paulinho de Castro, Rogério Cabral e o Damião estão montando um AECC, Acesita Esporte Clube no Céu., A eterna polêmica continua , vai ter time de futebol ou não ? Ainda não tem consenso, e pelo que observo não terá. Só uma coisa é certa, o presidente é o Cirênio .
 O Dr. Jayme está sempre ao lado do Paulo Bastos  vendo e comentando os jogos  do Fluminense. Seu Paulo se sente no paraíso ( e está) , a televisão daqui pega bem , não tem chuviscos , interferências e muito menos fantasmas. Ele só acha meio chato o prestígio da Rede Vida por aqui.
 A Dª  Haydée juntou uma turma de professoras montou uma escola no Jardim do Éden. É isso mesmo, no jardim. Aqui não chove, não faz frio e nem calor demais. Dá para fazer uma escola ao ar livre.  Uma  coisa  ela estranha , a meninada é muito boazinha , não faz bagunça , faz os deveres , não cola nas provas , é obediente. Ela não reclama , mas que ela sente falta dos levadinhos , ah! ela sente. Já imaginou : A Dona Idê  calminha o tempo todo?
 Outro que se sente no Paraíso é o Seu Mundico . Primeiro, não tem que tomar conta do Armazém , até porque não tem isso por aqui . O Cristo   prometeu aí na terra: “ Quem vier comigo terá vida eterna , e vida em abundância”.
Como aqui não tem gravidade o  Seu Mundico anda ereto , empezinho , que nem naquela foto dele e da Dª Zélia que o Alfredo divulgou na acesita-net. Vocês precisam ver como anda a autoestima dele. Não parece , mas ele sempre foi um pouquinho vaidoso .  
Outra coisa que o deixa muito feliz é que o povo daqui não tem pressa ,  ele pode  andar tranquilo no seu Aero-Willys  sem ninguém buzinando atrás. Já sei , vocês querem saber se tem carro no céu. Meus amigos , é óbvio que tem , aqui é o CÉU , é o paraíso ! Quem veio para cá pode ter tudo que o faça feliz . Pois é, o Seu Mundico sempre gostou de carro, de dirigir, aí ele pediu a São Cristóvão e teve seu pedido atendido. E agora ele anda prá todo canto no seu Aero.

O Dr. Geraldo juntou uns amigos  e fundou o Rotary Club Acesita Celeste , fundou também um clube de malha , seu esporte predileto. Anda meio macambúzio, porque uma das coisas que ele mais gostava de fazer aí na terra, era fazer palestras e dar conselhos, e por aqui a demanda por esses assuntos não existe. Outra coisa que o deixa meio trist , quase não existe advogado aqui no céu ( por que será?), assim ele fica meio sem companhia.

Seu Cyro também reclama que não tem correligionários para armar uma eleiçãozinha. Ele quis montar um partido político por aqui, mas São Pedro , o síndico do pedaço, desaconselhou: “ Você está aqui como exceção , melhor não correr riscos.  O FILHO do HOMEM  , quando esteve na Terra participou de uma eleição com um tal de Barrabás  e perdeu , ficou cabreiro com esse negócio de eleição”. Falaram com o Seu Cyro que se ele insistisse em mexer com política teria que mudar de domicíli , e como aqui no Além só tem duas opçõe , ele desistiu .

O Dr. Virgílio e o Sr. Milton Ribeiro estão sempre juntos, filosofando e observando tudo, quietinhos  como bons mineiros. Engraçado esse Dr. Virgílio, descendente de italiano, mas mineiro até no fundo da alma. De vez em quando põe a Delfina no colo. O Virgilinho morre (modo de dizer) de ciúmes.

O Dr. Ery implica com todo mundo, principalmente com o Seu Milton Ribeiro, que faz raiva nele fingindo que não liga. Como aí na terra, o Dr. Ery fica dividido, tem hora que está com a turma de Acesita, de repente se manda e vai ficar com a turma de Santa Maria. Acho que o Cirênio sempre esteve certo, o Ery saiu de Santa Maria, mas Santa Maria não sai dele. 

Outro que anda sempre rindo por aqui é o Tião Escorrega. Vocês estão surpresos? Calma que eu já explico: O nosso Malazartes nunca foi bobo, quando viu que estava chegando a sua hora correu no INSS.  Depois de muito 171  prá cima do Dr.Xisto, conseguiu um atestado de que, no quesito “responsabilidade”, ele se comportava como um menino de 10 anos, não tendo domínio dos seus atos, portanto inimputável. Quando ele protocolizou seu pedido de entrada no Céu, o mesmo foi indeferido. Ele não acatou, recorreu, e aqui a segunda instância fica a cargo da Compadecida. Aí o nosso amigo saca o laudo e prova que, apesar das muitas aprontações, nenhuma era grave, apenas coisas infantis sem maiores conseqüência. Pediu, e conseguiu que a Compadecida visse como era a sua amizade com as pseudo-vítimas . Aquele lance do talão de cheques do Xandinho foi decisivo, pois a amizade entre os dois não ficou abalada.

Não pensem que ele mudou, outro dia encontrou o Seu Ugo Foschi e o Iorque conversando no Clube de Motoqueiros  Anjos Celestes. Como eles estavam distraídos, no maior papo sobre as suas CB 400, o Tião não pensou duas vezes, trocou as chaves das motos. Quando foi sair o Ugo ficou bravo, queria estrangular o Escorrega. O Iorque até gostou, estava pegando o boi, já que a sua CB estava toda  lanternada, e a do Ugo nem arranhado tem. Não fosse a intervenção da Dª Tosca, o Tião iria levar umas merecidas canoas. Por falar na Dª Tosca, com aquele jeitão de “Nona” foi escolhida por Nossa Senhora ( A  Compadecida) como sua representante na Acesita Celestial.

Tem uma turma se reúne no Boteco do Céu Bethônico:  Paulinho de Castro, Bernardino Guerra , Romeu Borges, Arthurzinho, Seu Cyro, Tião, Cirênio Preto e outros. É gente, vocês são preconceituosos mesmo . Quem disse que ser alegre, irreverente é pecado? O que  garante alguém aqui é ter sido gente boa aí na terra. Há muito tempo o Stanislaw Ponte Preta já dizia: “Deus só não perdoa um tipo de   pecador – O CHATO”. A chatice é mais que “pecado mortal”, é “pecado imortal”,  nem a morte absolve. O Paulinho de Castro, que não perde uma troça repete o tempo todo:
“ Coitado do Vavá da Tabajara , vai rezar , rezar, puxar saco de padre e bispo. Mesmo assim não vai entrar no céu.”

As discussões entre atleticanos e cruzeirenses não acabam, nem após a morte. Eles só se unem para sacanear o Bernardino que é americano, parece que vai sofrer por toda eternidade.

 A turma  só tem uma reclamação, o  vinho canônico. A única bebida servida aqui é muito fraquinha, custa muito a dar zonzura. Ameaçaram procurar outro boteco, mas o Romeu, muito esperto, lembrou que, aqui no Além,  o Timirim das Cachaças fica no andar de baixo. E que lá, além de todos os tipos de bandidos, é o lugar para onde vão todos os chatos do mundo. Ninguém merece!

Meu amigo Humberto, vou parando por aqui, porque esse privilégio que estou te dando tem limites.
Com as recomendações do Sabará, despeço-me,

 Sua amiga, Madame Abigail.

Ps : Dª Idê e o Dr. Geraldo mandam-lhe um recado:
De dia você fica muito  na internet e de noite até tarde nos botecos. Assim não dá, vê se  toma juízo!  

 

Humberto Perlingeiro de Abreu

 

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